20101126

Jerash, Jordânia O cabelo cresce, encolhendo os ombros. Isto é especialmente notório na farta cabeleira de Alexandre Virgílio, pensador de bom trato e homem de fino recorte. No entanto, ultimamente, as ideias brilhantes não surgem com a desenvoltura habitual. Sente-as presas, como que entarameladas na trunfa densa que o adorna. Ponderado, toma uma decisão, e um assento, no barbeiro. A cada golpe de tesoura a cabeça fica-lhe mais leve. No chão de Travertino Romano, pousam tufos encaracolados onde definham, em pena leve, grupos de ideias subversivas. Alexandre Virgílio passou a mão rente ao escovilhão aparado e aguardou uma ideia. Por momentos pareceu-lhe que... mas não; era um mero arrepio de frio a rodopiar-lhe a nuca, criando um remoinho. Franziu então as sobrancelhas de um modo extremamente inteligente, mas só arranjou que um chorrilho de pontas espigadas lhe escorregasse pela cana do nariz abaixo, colando-se desagradavelmente ao lábio inferior. Nem um pensamento iluminado, nem sequer uma tirada espirituosa, para poder abandonar o salão em beleza. Agastado, saiu a cuspir cabelos. O barbeiro varreu cuidadosamente cada gaforina solitária, cada melena, cada bola de pelo para um saquinho sedoso. Nos fundos da barbearia, mantinha uma oficina de enchimento de almofadas e entrançado de perucas, que comercializava, com grande sucesso, sob o chamariz de serem poderosos indutores de ideias inteligentíssimas. Desengane-se quem aspira pela permanente. O barbeiro, frio e cortante, irá arrancar pela raiz cada uma das ideias que temos de nós próprios, deixar-nos sem referências, lisos e deslumbrados pelo inevitável, para depois nos abandonar na habituação das amostras grátis.

20101120

Petra, Jordânia O caminho peregrino é feito em recato, por pedra e corpos. Teias de luz intensa roçam a pele e aguçam a curiosidade. O espaço mexe, a cada sussurro. O palato arrepia-se. Ouvem-se vidas em passadas lentas. Deixamos a vista em ponto de fuga e a cabeça em respeito promontório. A oliva, emboscada, lança raízes de sombra a cada passo. Alheios à literatura, os zângãos voam em círculos, como sempre fizeram.

20101107

Amman, Jordânia A mulher-a-dias preferia as noites. Ninguém apontava o dedo aos cantos da preguiça. À noite o pó não se levanta e de dia deitava-se ela, surda às reclamações. Trabalhar à noite em estabelecimentos fechados trazia-lhe, amiúde, o guarda-nocturno à perna, testando a solidez da fechadura. Tantas foram as vezes que o coração quase lhe saltou do peito às investidas do homem, que acabou por casar com ele. Assim, trabalhando os dois à noite, dormem de dia, escusando-se ela a limpar a própria casa, que só vê ao lusco-fusco, e não se preocupando ele com assaltos, pois, como se sabe, durante o dia os meliantes também estão a dormir.
Petra, Jordânia Arrancada sem cerimónia, chorou todo o caminho. Seca, foi apertada num saco de corpos onde lhe sugaram, a quente, as últimas cores. Às escuras, com a vida por um fio, sentiu a alma escorrer para a luz. Os restos apodreceram no fundo do bule.

20101103

Petra, Jordânia Os olhos, antes sobranceiros, cravaram-se bem fundo na polpa do texto. E, nada. Ou melhor, via-se algo de caravana beduína fustigada pelo siroco, ou, melhor ainda, um emaranhado de algas a ondular pelo jornal fora. Já na mercearia, o contra-rótulo do vinho exibira apenas uma penugem escassa e irregular, ocultando a leitura das castas. Quando abria um livro, era comum esvoaçar um novelo de estorninhos, ou qualquer coisa do género. Até a marca do carro era agora um molusco brilhante. - Que falta de caracter. - gracejou, pouco à-vontade, olhando em volta. O restaurante à sua frente chamava-se uma espécie de cardume de peixes lanzudos a rodopiar. Entrou e fechou-se no menu. Nas especialidades da casa destacavam-se as filas de dominós hesitantes, uma ou outra marca de travagem brusca, esquissos pobres de Seurat e insistentes cagadelas de percevejo. Saiu a correr, deixando uma nota de vários algodões doces, na mesa. As palavras fugiam-lhe, as dissimuladas. Quanto mais se chegava ao rigor dos caracteres, mais ardilosas se tornavam as suas formas. Troçavam dele nas suas costas, sabia-o agora. Nunca mais viu uma letra. Ás vezes, quando se afastava delas, vencido, voltava-se de uma guinada e parecia-lhe ver o serifado de uma perninha itálica a desaparecer na savana.